sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Nós, Povo sem fibra



Eu amo este país sobretudo pelo que foi: um país de gente tesa, ambiciosa e determinada. Não quer dizer que não admire muitos portugueses contemporâneos e que não me esforce, no dia a dia, por ser útil ao país e às pessoas naquilo que faço e que é escrever; mas passam dias, anos e décadas e não há maneira de este país arribar e tornar-se um sítio decente e bem frequentado. Para quem gosta de Portugal e tem filhos – eu gosto, eu tenho – o futuro não sorri.
Pelo contrário: é uma angústia.
O país cheira mal. Últimamente, não há dia em que não me chateie seriamente com o telejornal – aquele programa que passa à hora do jantar entre as novelas: porcaria de notícias e porcaria de gente que as provoca. É uma injecção diária de corrupções, arranjinhos, atrasos, demoras, mesquinhices, inquéritos, comissões de inquéritos, suspeições, irresponsabilidades, insanidades, desempregos, golpadas, falências, bravatas, negociatas, governo, estado. Foda-se, chega! Estou farto da agenda noticiosa deste país. Farto da boçalidade reinante. Que puta de fatalidade a nossa!
Também estou farto daquilo em que nos transformámos: massa mole e esponjosa, cada vez mais bovina e estupidificada; como Povo, acho que [neste momento] temos a personalidade de uma lesma e o carácter de uma amiba. Os Portugueses de Quinhentos haviam de nos desprezar se soubessem em que estado está a espinha da Nação. Perdemos completamente a capacidade de reagir com um NÃO VIGOROSO às merdas que vão acontecendo, às merdas que nos vão impingindo, às merdas com que nos vão entretendo. Para depois sermos informados por relatórios de Bruxelas de que o nosso lugar, ao fim de 30 anos, continua a ser a merda do cu da Europa e que [praticamente] todos outros estudam mais e melhor, trabalham mais e melhor, produzem mais e melhor, ganham mais e vivem melhor. Mesmo os que entraram há meia dúzia de dias.
E nós, népia. Porque somos preguiçosos, moles e acomodados, aceitamos tudo e a tudo encolhemos os ombros; falta-nos fibra: questionamos nada, exigimos nada, contentamo-nos com pouco e só protestamos quando nos tocam na merda da «vidinha». Estamos cada vez mais egoístas, mal educados e incultos. Perdemos a noção [colectiva] de grandeza e desconhecemos por completo o que é um gesto generoso, uma vista larga, uma causa nobre. Batemo-nos por insignificâncias e desde que nos dêm jeito à «vidinha». Vemos [nós, país de marinheiros] seis pescadores morrerem estupidamente à beira da praia e não exigimos ALTO E BOM SOM ao Estado, que a) apure b) puna exemplarmente, mas PUNA MESMO os incompetentes responsáveis por essa miséria.
E achamos normal ter duas televisões [SIC e TVI] que ocupam todo o horário nobre com merdas de floribelas atrás de floribelas. Sim meus amigos, é dificil ter dois dedos de testa e não andar mal disposto com isto.

Barão de Lacerda

3 comentários:

Germano Freitas disse...

BRAVO.
Estou consigo Barão. Também já não consigo ver telejornais. Há uma coisa chamada TV Cabo, sabe?

LaBellaMafia disse...

Caro Barão,

Suponho que seja um nobre de já experiente idade... agora imagine jovens como eu, cuja a traça deste país reconhece, idolatra e quer ver maior que o seu pseudismo e tem que se resumir a assistir a tudo o que descreveu e muito mais. Sem falta de modéstia, caro Barão, considero-me uma jovem com potencialidades que tendem a ser ensombradas neste meu querido país por problemas de estrabice política e falta de empenho... quanta pena tenho eu, quantas vezes não pensei emigrar, mas a saudad tem-me retido, a questão é até quando, caro Barão, até quando...

Luis Meireles disse...

Texto duro e impiedoso mas muito bem esgalhado. Assino por baixo, sr.Barão. Infelizmente!