quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Aristides, o justo



A RTP passou ontem um documentário sobre Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português de Bordéus que salvou a vida a milhares de refugiados - judeus e não judeus - no inicio da II Guerra Mundial. Fez bem. Este homem foi um herói. Um herói que o país de Salazar tratou abaixo de cão.

Aristides, aristocrata rural com algumas posses. Diplomata de carreira, católico e anti-republicano, herdou casa apalaçada em Cabanas de Viriato e fez prole imensa: 14 filhos. Este homem culto e esteta tinha 55 anos e a vida estabilizada em Bordéus quando, contrariando ordens expressas de Salazar e ignorando os avisos que lhe foram feitos, passou milhares de vistos aos que queriam fugir da França invadida pela besta nazi. Sem cuidar de saber credo e raça dos que se lhe dirigiam.
Quando Salazar - basta! - o mandou regressar a Lisboa para lhe instaurar processo disciplinar, Sousa Mendes tinha carimbado cerca de 30 mil vistos entre 1938 e 1940 e salvo, muito provavelmente, igual número de vidas. «Obedeci a um dever de consciência», explicou ele. A História da II Guerra Mundial credita a este português recto e corajoso a «maior operação de salvamento de vidas levada a cabo por uma só pessoa». Na realidade, Sousa Mendes salvou muitissimo mais vidas do que Oskar Schindler. A diferença é que Spielberg filmou o segundo.

Salazar, ditadorzeco vingativo, nunca lhe perdoou a desobediência. Ostracizou-o e humilhou-o. Decretou-lhe passagem compulsiva à reforma com um quarto do vencimento e vetou-lhe qualquer possibilidade de emprego na administração pública. No fundo, condenou o cônsul à ruína.
O resto da vida de Aristides foi penoso. Com 14 filhos para sustentar, vendeu bens e entregou-se à ajuda da comunidade judaica de Lisboa. Engoliu o orgulho e escreveu cartas a Salazar. Chegou a implorar-lhe clemência. O filho da puta do botas nunca - mas NUNCA - se dignou responder-lhe... mas foi hipócrita ao ponto de, no final da Guerra, elogiar em discurso na Assembleia o papel de Portugal como país acolhedor de refugiados. «Só foi pena não termos podido fazer mais», ciciou aquela vozinha de paneleirete.
Aristides morreu em Abril de 1954, «pobre e desonrado» no hospital dos franciscanos em Lisboa. Como nem um fato próprio tinha foi enterrado numa túnica de franciscanos. Salazar, cabrão torcido, enviou um telegrama ao irmão gémeo de Aristides com duas palavras: «sentidos pêsames». Após a morte do cônsul, a casa de Cabanas de Viriato, assim como o recheio, foram vendidos em hasta pública por causa de divídas que não tinham sido pagas. Apenas as paredes foram poupadas, ficando o seu interior completamente vazio e à mercê de estranhos. O espaço chegou a ser usado como pocilga (...)

Em 1987, 17 anos após a morte de Salazar, o Estado Português iniciou o processo de reabilitação de Sousa Mendes, condecorando-o com a Ordem da Liberdade. A sua família recebeu um pedido formal de desculpas públicas. Finalmente em 1998, o Estado atribuiu-lhe a Cruz de Mérito a título póstumo pelas suas acções em Bordéus.

A casa de Cabanas de Viriato continua abandonada. O Estado Português só tinha de a recuperar e ali instalar um museu ou um memorial com o nome do Herói. Qualquer outro país civilizado já teria feito isto há muito tempo. Mas o Estado Português, como todos sabemos, não é uma pessoa de bem.

Barão de Lacerda

4 comentários:

tessa de baviera disse...

Continue, Barão, continue. Estamos a gostar...

Rudolfo Eça disse...

Gostava, caro baronete, que fizesse, também, um encómio ao brilhante documentário feito sobre a personagem Salazar por Jaime Nogueira Pinto. É que ajuda a esclarecer muita coisa... e não deve esquecer-se, ilustre nobre, que o doutor Oliveira era adepto da monarquia... Se a vossa senhoria também corre sangue azul nas veias...

O Restaurador Olex disse...

Ó meu caro Rudolfo!

Como posso fazer um encómio a um documentário sobre um personagem que desprezo?!? Aliás, deixe que lhe diga: também não tenho o Nogueira Pinto em grande conta. Já o vi ser arrogante e grosseiro com pessoas que ele provavelmente considerava insignificantes. Ora isso não me parece coisa de homem decente.
Aceito e respeito toda e qualquer opinião alheia, mas não me obrigue, estimado Rudolfo, a escrever mais sobre o tiranete de visão curta que tanto prejudicou este país.
Era Salazar adepto da Monarquia? E então?!? Isso desculpa-lhe alguma coisa? Não infira do facto de me correr sangue azul nas veias simpatia por todo e qualquer pretenso «adepto da causa monárquica». Saiba o Rudolfo que alguns dos mais refinados cretinos que conheço dizem-se justamente «monárquicos», sem saberem, coitados, a má imagem que emprestam a uma causa tão respeitável e legítima como outras.

Do seu,
Barão de Lacerda

miguel horta disse...

Caro Barão
Desculpe a hora tardia em que escrevo, mas isto da idade e do estado do País traz insónias.
Deixe-me só acrescentar uma coisa que talvez não seja do conhecimento público.
Aqui há anos, 1987 se não estou em erro, realizou-se na Gulbenkian (Lisboa) e na USP (Universidade de São Paulo) o 1ºCongresso Internacional sobre a Inquisição. Evidenrtemente não assisti a todas as comunicações mas na USP, historiadores, investigadores e jornalistas de renome houve que, em plena sessão, afirmaram com natural azedume que Salazar foi, para além do que se sabe, um anti-semita convicto e, até certo ponto, conivente com perseguições que se fizeram ao povo judeu. Nessa altura Samuel (Sam) Levy, líder da comunidade judaica em Portugal durante anos e uma jóia de homem, levantou-se indignado, ele que era refugiado, e insurgiu-se contra tais acusações, exigindo que os acusadores se retratassem de tal infâmia e gritou bem alto (literalmente) para que ninguém se esquecesse que o prof. Salazar tinha sido dos poucos líderes/ políticos europeus durante a 2ª Grande Guerra que tinha acolhido os perseguidos judeus, mesmo que isso irritasse Hitler e pudesse trazer dissabores a Portugal. Facto foi que, dado o Sam ser quem era, todos os que diziam o que lhes parecia ser a Verdade, engoliram em seco e retiraram o que disseram, envergonhados. Gostava de saber se as palavras do JUDEU refugiado Samuel Levy ficaram registadas em acta ou se, como muitas vezes acontece, foram apagadas para sempre.
Barão, sei disto porque assisti.
Dito isto, há qualquer coisa nesta história que me escapa. Talvez um dia, alguém possa esclarecer os verdadeiros motivos desta mais do que injusta perseguição ao bom homem que foi Aristides de Sousa Mendes

Cumprimentos
miguel horta